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venerdì 21 aprile 2017

Agora a colher

* Mais uma tentativa de escrever sobre lavar a colher na pia. No blog tem outra, de junho de 2008

Uma sobra de gordura, matéria pura sem forma nem cor,
grudou na colher que a senhora, o senhor,
que traz quase toda sua vida
espalhada por toda sua coluna doída,
ou não traz nada,
lava.

Onde estava a senhora? Atrás de uma cortina branca
no interior da Frisia. Mas a Frísia é apenas o nome do pedaço de mundo
onde a Antonia come––e lava a colher.
Ela despeja no metal um detergente qualquer––amarelo.
O detergente é gosmento, suas mãos são feitas de carne
já tocaram o ríspido e o belo, já apalparam o tenro e o espinhoso;
ou não apalparam nada.
A pessoa que lava a colher é polifónica:
está por toda parte,
por toda cozinha,
universal, quotidiano, empacado e abstrato.
E é eterna.
Sempre lava a colher.

Eu agora da senhora.
da agrura dos objetos
da cozinha sem endereço,
sem latitude.
Amanhã lavo a colher,
em Copacabana lavo a colher,
em Veracruz esfrego a colher,
no Mississippi lavo a colher,
na Walonia ela lava a colher,
na Patagônica ponho pra secar e desligo a torneira
esvaecer a sobra de gordura––esgoto abaixo.
Duas mãos compostas de minutos gordos e magros,

Talvez consigas encostar tua testa nelas.

venerdì 14 aprile 2017

O rodapé da Mars Poetica


<< Il cavallo scalpita, i sonagli squillano, schiocca la frusta.—Ehi là!— Soffii il vento gelido, cada l'acqua e nevichi, a me che cosa fa? >>

Mars Poetica

Não é sentir uma temperatura em um pacote;
não é fixar os olhos nas extremidades das portas
onde elas ficam afiadas e afinadas em um pacote.
Não se trata de uma confissão.
Mas na pele onde tem dermatologia
tem analogia.
E outra, e outra - querendo chegar na Mesma.
Dá no mesmo.
É claro que parece nessa tarde de sexta-feira santa
a 3 milhas do Mississippi e depois de ouvir Pietro Mascagni
que estou à esmo.
Mas não era a rima e nem a razão que dedilhavam
pelos meus dedos, nem era a sensação.
Era a minha incapacidade de sorver
o vento quando a porta está aberta.

domenica 5 marzo 2017

Nähe\Beckett

Duas luzes, a da imensidão contemplada com os olhos de quem incorpora
(compreende, aprende, descobre, dispõe, alicia) e
a do pequeno vaga-lume que o imigrante sírio de 3 anos
encontra nos olhos de mãe.
A psicologia papai-mamãe fala do vasto mundo e do sentimento oceânico.
Há os oceanos, e há uma invencível armada.
Há Cook e há aquela esposa do bombeiro de Chernobyl que Alexièvich descreve
(não há como escolher entre o amor e a vida).
Queria entrar de um delírio (beckettesco)
sem pai nem mãe.

Um paciente sem paciência.

venerdì 3 marzo 2017

O messias chegou, salvou ou danou, e já se foi

se foi virar fumaça o cidadão enquadrado e respeitado e agora é trapo sem ter escolhido a sordidez nem por um segundo
não se trata de punição, as portas são ralos, e ralos não tem soleira, não tem batente, não tem dobradiças
me entupo de bolo de mel com lavanda
como pode haver um bolo de lavanda. e sei que a lucidez patas de aranha é uma composição química
uma farmácia, e mais que isso, bem mais.

escrevo sobre o cansaço - a grande porta.
é a porta que me interessa nos enlutados, nos traumatizados, nos que estão pós-esperança
nos que não mais galgam.
estar por aí ainda como entre os que sobreviveram e descobriram a vida depois e
não antes do messias chegar.

termino as páginas do museu da inocência de pamuk
também kemal ultrapasou o que queria da vida e seu museu é o de depois
os museus são sempre de depois, é por isso que soltam um ar tranquilo
de quem já terminou os anos
e apenas se lembra por alto do que foram os meses cheios de dias.

no café do garden district tocam un nino rota, acho que de amarcord
a infância relembrada como um bicho empalhado;
virar pós-criança

Bu na Ana Lama


O Coletivo Bu chega à Ana Lama bem jázinho. Assim escrevi para a ocasião:

Listar, listar, listar, é para isso que estamos aqui

Os Bu tem uma forma toda particular de negar. Certo, já acreditamos que cada negação, seja compulsiva ou compulsória, é uma negação e não outra negação; elas podem ter uma semelhança de família entre elas – um dedinho se movendo da esquerda para a direita e depois voltando da direita para a esquerda como quem risca as linhas escritas e depois risca as entrelinhas esboçadas ou uma cabeça que se move de um lado para o outro como quem procurasse e procurasse e não encontrasse nem à leste e nem à oeste – porém cada não é um não singularíssimo, uma mão aberta que pára um fluxo seja de acontecimentos ou de ensaios de acontecimentos, uma contramão que torna algum pedacinho suspeito de não-ser, ainda que flutuando em afirmações suculentas. Tem a negação viscosa, tem a negação vistosa, tem a negação indiferente e tem aquela que insiste em colocar alguma coisa em um canto diferente. Mais que isso, cada não é um não – tem um meandro irrepetível, tem um meneio que não pode ser copiado nem pela memória (essa Wolfgang Beltracchi de mãos tão leves) e não há um não igual a cada não dos Bu em nenhum dos mundos possíveis e em nenhum dos que não seriam possíveis. Cada não é uma nau – e é assim cada negação uma inauguração. E os Bu inauguram um continente de negações imóveis – uma derivada por uma avenida sem saída – que pretendem refutar sem sair da janela onde contemplam contra o horizonte, contra os viadutos, contra a catedral, contra as escadas do banheiro público. Negação gorda de imensidão, “o movimento do homem imóvel”. A imobilidade não vai a parte alguma, nem ao oriente e nem ao desoriente, não tem mesmo horizonte algum – é mapa da ferrovia sem trem, é um dia hora por hora sem agora e sem mais tarde. É como aquela eternidade sem tempo, aquela que nega porque nunca deixa acontecer. Os Bu são uns negalhões, negam tão imensamente que chegam a dizer mascarados de validade muda.

Os Bu tem uma forma turbulenta de estarem cansados. O cansaço é uma negação do tipo daquela que não aguenta mais. Mas tem o cansaço também do que pede apenas um último esforço. O cansaço é a negação nas vísceras: sim, claro, poderia fazer isso também mas já não aguentam de pé os meus pés. Discutem os sábios se o corpo mente, desmente, omite ou só manda. O cansaço dos corpos parece a última das autenticidades – como insistir com um corpo que é o que está cansado, com um corpo que não tem o ímpeto de ter ímpeto, com um corpo que é fiel às garras que o prendem sentado e que não se arrependem de nenhuma de suas imobilidades. Exaurir, exaurir, exaurir: para isso estamos? E, para negarmos na viscosidade, fazemos para nós um corpo exaurido. Sim, um corpo exaurido já não mais pode ser condenado ou aprovado ou recomendado ou punido. Como podem os Bu estarem tão cansados? Eu também recebi um convite (foi deles?): cansa-te. Também um convite que se derretia, que pingava em gotas vermelhas viscosas enquanto eu caminhava à beira de um rio (era o Mississipi ou era o Tejo ou era o Das Almas?). O convite para me cansar vinha ilustrado: veja os exauridos, eles podem ser deixados em paz pela maçada que é acreditar que há uma monte Fuji a ser escalado pelos acontecimentos sucessivos que cavalgam pelas nossas vísceras.

Os Bu tratam da ansiedade. Bem, certo, não há talvez mais nada a ser tratado. Nada mais além da ansiedade. Nada mais além da pressa em percorrer os próximos cinco minutos ou a demora em percorrer os próximos cinco minutos. E a ansiedade faz listas como as que fazia Erik Satie que não sabia viver: dormir 2 horas, almoçar em 29 garfadas, procurar um pássaro no céu. Fazer listas, levá-las ao infinito. Acostumar-se a nada mais que listas infinitas. Não uma receita para alcançar a redenção ou um caminho para o rendez-vous com o messias, nada disso – apenas uma lista, um item depois do outro. Nenhum acontecimento-preliminar, nenhum acontecimento-tira-gosto, nenhum acontecimento-amuse-bouche e nenhum acontecimento-climax ou acontecimento-apoteose: pisar no meio-fio, comer uma mordida do pão, fazer uma exposição, receber 1000 refugiados, casar, comprar leite, parir, descascar o abacaxi, se apaixonar, ler o jornal, envelhecer. Um horizonte aberto de itens e mais itens sem picos e sem vales. Não mais cumprir a tarefa da vida, mas cumprir as tarefas da vida. A lista é um gênero; ela é uma escultura, uma escultura plana. E é um gênero sem gênero nem espécies – a lista não tem hormónios e nem surtos de ansiedade ou de desejo, quem lista não deseja. A lista é apenas um amontoado de itens. E os Bu são especialistas já que vivem na imobilidade e na imensidão: quem lista não se move, não se acelera, não se apressa. A lista é a receita contra toda ansiedade: o Everest e o Mar Morto são apenas itens, e itens estão apenas um depois do outro.

Os Bu regurgitam ontologia plana. Planíssima: um plano de listas infinitas, imensas, imóveis. Nada está mais importante que nada mais; os olhos cansados que já não se atiçam diante do puré de castanha com creme de alfarroba e nem se apavoram diante do chamado de Cthulhu. E o cansaço é estética e é ética plana – se tudo está em um mesmo plano de quem dexiste da espera, um ainda outro interromper tudo; aquilo que não pode estar listado. Os Bu nem se preparam para o deslistado. Não há preparação, há uma planície de afazeres. E um pano de fuga. Ali onde estão pintadas paredes e nuvens e uma foto tamanho de passaporte de uma curadora portuguesa que talvez nunca tenha ainda.

O texto foi uma resposta ao texto do Bu:
Recebi um convite. Não veio em papel material mas logo o transformei pois acredito e necessito da acumulação, não sei se acredito mas a maior parte das vezes sinto que necessito. Demorei vários dias, meses, semanas, a lê-lo e cada momento que passava ele ia ficando mais pesado e quando li a última linha o início já tinha apodrecido a tal ponto que escorria uma gosma que colava. Essa gosma viscosa conheço-a bem e por afecto não a limpo. Também eu sou um ser viscoso, viscoso por fatalidade e condição. É essa viscosidade que me prende em casa, causando repugnância à vizinha da frente. Viscosidade como resistência do fluido ao escoamento. Esse movimento com o objectivo de sair ou abandonar determinado lugar lembra-me logo daqueles que fogem, daqueles que rapidamente encontram um buraco para se enfiar. Nunca fui assim, sempre demasiado picudo para esses lugares, nunca tive essa visão aguçada de ponto de fuga. Um corpo tem mais viscosidade quanto maior o seu atrito, como a hiperacumulação que sofro e que sempre me faz sentir imiscuída e ao mesmo tempo sem lugar. As camadas, o pó, os papéis, as ideias, os projectos, vão-se sobrepondo, misturando-se, criando uma espécie de bolo alimentar malcheiroso e repugnante que deveria fazer o seu caminho ao longo de uma estrada sinuosa. Falta-nos intestinos na cabeça e por isso, esse bolo vai-se adensando, compactando até não mais sair (parecido com uma couve-flor sem água). A minha história, também pela minha (in)feliz condição, conta-se, então, pelo que não se vê mas existe. Será como a relação do sim e o seu contrário, entre a essência e a transcendência. A potência da acção também é a não acção, senão seria a acção por inteiro, perdendo a condição/característica/vestimenta da potência. A potência de fazer é também não fazer como o gato que está vivo ou está morto e afinal está vivo e está morto, as possibilidades são todas possíveis e coexistem. Possibilidades totais que levam à incerteza e à entropia que me faz sentir mais pertença, que faço parte de uma natureza cosmológica. Contradição (aparente) de ser e não-ser no mesmo espaço-tempo é uma forma extrema de vida. E com isto recordei o meu convite vindo de uma curadora famosa mas triste que encontrou o seu ponto de fuga na arte hardcore e na fuga em si. Uma clássica que ainda acredita que arte extrema tem que ver com esporra e sexo mas que no fundo é boazinha e defende os artistas não monumentais como se fossem refugiados. Gosto disso dela porque nunca gostei de fronteiras. Como ela, também tenho esse dom de causar consequências e aceitei o convite. Só para lhe mostrar que há várias artes extremas e apoiamos também a sua fuga para as ilhas (?). Invejo-a pelo seu ponto de fuga que foi a fuga talvez em barco para os Açores, mas mesmo em fuga quer traçar bem o seu caminho mandando postas de atum aqui para a capital artística portuguesa. Ontem fui a uma exposição composta por um objecto de ferro forjado, pequeno, disforme e detestável. Com esse objecto à partida simples, o artista conseguira falar e reflectir sobre a morte, os povos ancestrais e a sua morte, a fome causada pela crise e o caos deixado pelo FMI em Portugal. Fiquei fascinado e comecei logo a pensar numa peça que representasse tudo aquilo que me apoquentasse. Fiz listas, escrevi, li muito, pesquisei e não consegui. Penso que é uma incapacidade minha pois abro a agenda cultural e vejo muitas exposições, se calhar todas a falar de vários assuntos numa só peça. Tenho uma debilidade e um defeito e agora vejo como é patética a minha tentativa de adaptação. Sou viscoso e tenho muito atrito interno que dificulta o escoamento disse-me a interna no hospital mas ela estava com pressa e na verdade ainda não tive condições de consultar um especialista especializado. Mas o não conseguir materializar não necessariamente significa que não existe. E aqui está o meu drama. Tenho tudo em notas de rodapé que levam a outras notas de rodapé viciosamente como em suspensão, numa linha precária. Como a ambiguidade é, na boca do povo, a arte da suspensão, o meu ser e o meu trabalho (???) é ambíguo. Ambíguo e imenso. “A imensidão é o movimento do homem imóvel”, explicou-me o meu senhorio quando soube que eu passava os dias em casa a olhar pela janela, imaginando que nada do que via existia. Mas para ele a imobilidade não tinha nada de inútil nem de improdutivo. Era só uma questão de movimento, de aceleração, de física. Algo imóvel, como máximo de velocidade. Como se a imensidão fosse palpável e não tivesse nada de metafísica. Interessa-me isso à medida que vou escrevendo. As listas, ao invés de me ajudarem a estruturar a minha debilidade, tomaram conta dos meus dias criando assim uma vida paralela que, apesar de não vivida, era tão perfeita que começou a ocupar o lugar da minha vida tão desordenada e ambígua. Essa organização fictícia é um simulacro, uma representação artificial da realidade onde eu me adaptei a viver. Vejo-me (quando por vezes consigo projectar-me fora de mim mesmo) numa espécie de simulacro de ponto de fuga, como se fosse aquela estatuazinha de ferro forjado que vira. Uma concepção ao revés, um trabalho do não, uma distorção, destruição do real, do que existe (?). Encontro-me num projecto quase fadado ao fracasso, mas sempre tendo em conta a incerteza, as possibilidades, as ambiguidades. Será e é sempre um processo em bruto, um trabalho contínuo, como aquele em que alguém pelava batatas durante toda uma noite e ninguém comia. Algo assim. Em forma de provocação e desculpa, simultaneamente, deixar-vos com esta tentativa prévia e conscientemente condenada ao desastre, absurda simulação mascarada de validade muda, de certa forma (talvez) apenas para me continuar a orgulhar desta mania constante que tenho de renascer depois de todos os fracassos.

martedì 31 gennaio 2017

Christopher Norris on structuralism (and others)

Cristopher Norris published five poems in Performance Philosophy This is the one on structuralism:


STRUCTURALISM AND ITS DISCONTENTS
"The mind cannot remain at rest in a mere repertorization of its own recurrent aberrations; it is bound to systematize its own negative self-insight into categories that have at least the appearance of passion, novelty, and difference."

Paul de Man, ‘Roland Barthes and the Limits of Structuralism’ (1990)


Neat theory, but I doubt it fits our case.
Granted, all signifiers slip and slide,
Yet bygone signifieds still leave their trace.

The gap between might be just empty space
With nothing meant since meaning’s open wide.
Neat theory, but I doubt it fits our case.

If breaking up seems easier to face
When past intent affords no future guide,
Those bygone signifieds still leave their trace.

Splendid idea for structuralists to base
Their doctrine on, though here it’s misapplied:
Neat theory, but I doubt it fits our case.

Too much gets lost in synchrony’s embrace
As it canutes all thought of time and tide
While bygone signifieds still leave their trace.

‘If signs make sense,’ they say, ‘then it’s by grace
Of signifiers, not things signified.’
Neat theory, but I doubt it fits our case.

And if they say such doubts are out of place
Since theorists have the whole thing cut-and-dried,
Then bygone signifieds still leave their trace.

Behold those structures crumbling apace.
Time-lapse affirms what synchrony denied.
Neat theory, but I doubt it fits our case.

Lacanians think the signifier-chase
Goes on and on, but that idea’s belied
When bygone signifieds still leave their trace.

For we’re the sorts who need to interlace
Times past and present lest they subdivide
And that neat theory retrofits our case
So bygone signifieds can leave no trace.

martedì 10 gennaio 2017

O medo da soberba

Ontem nas margens do Veredinha
falava com Guto da hospitalidade
aquela que as igrejas evangélicas fazem
nas nossas cidades.
Se houvesse uma completa igualdade
não haveria um espaço de acolhida
em que pudesse a hospitalidade se exercer.
E ele me disse: como assim.
pensemos em um exemplo.
Se houvesse igualdade material
todos os que chegassem em Brazlândia
teriam já casa e comida
(cada um tem seu tempo
e o tempo é alguma coisa que é sempre
diferente. Por isso não pensamos
senão em uma igualdade material, e
acreditamos que entendemos o que estamos
dizendo.)
Pois bem, ele retrucou, eu moro no 301
e você no 101, quando você chega na minha casa
você já precisa de um copo d'água.
Mas se a igualdade material for completa
todos sempre vão ter água para beber,
na mesma quantidade,
na mesma condição.
Ah sim, tudo isso é uma fantasia
para entender o acolhimento.
Mas quem vai prover tudo isso
- sim um grande provedor.

Hoje então sonhei: quem seria esse
grande provedor? Uma estrutura burocrática?
Sim, já há funcionários e muitos deles.
Mas não podem fazer isso com perfeição,
isso nunca é perfeito.
Quem disse esses últimos versos?
E no meu sonho apareceu a cara do arquiteto
mouro de Andaluz
que construía pequenas imperfeicões
porque a perfeição é um pecado
de soberba.

lunedì 19 dicembre 2016

oui, c'est la force

Dias correndo pelos corredores,
atravancados de livros, cachos de
cabelo, árvores de natal empacotadas,
cimento.

O quarto de Cortès, minúsculo,
e com uma janela para os campos
e os montes
e os deuses. O quarto de Achebe
que é banheiro, que é cozinha
e que cheira o bafo das coisas
antes dos pacotes.
O quarto de Trump ao lado de uma
ante-sala onde vivia Chamberlain;
automático e com um botão dourado
em cima da mesa ao lado da canapé.
Não há violência sem hospitalidade.
Não há força sem concessão.

sabato 17 dicembre 2016

Me deixar entender

Deve ser sobre zumbidos sumidos
tic-tac-tic-tac, no tempo dos outros.

No entanto o ofício das palavras é colocar cada um dos pedaços de trilho para o trem passar
e depois mudar de rota.

Ana Lama

Um dos da inauguração da Galeria Ana Lama embaixo da calçada da Sé, Lisboa:

Alguns traços anarqueológicos e lamarqueológicos de
Ana Lama em Londres, Brighton, Bruxelas e Calais

Preliminares metodológicas
O passado é um emaranhado de datas; as datas tem por natureza entulharem-se umas sobre as outras – as farsas se amontoam sobre as tragédias, as ordens constituídas se amontoam sobre os eventos constituintes. O passado, porém, é também outrora, uma outra hora, já que o tempo é sempre o que interrompe as presente e o que traz alguma coisa à presença. O passado arqueológico é o passado das datas: épocas, eras, idades. Assim também é o passado geológico que faz das camadas do chão um arquivo de sedimentações que registra sucessões, simultaneidade e ritmos. O passado anarqueológico é um passado alheio às datas, a anarqueologia estuda um tempo sem atentar ao tempo anterior e ao tempo que lhe segue. O passado anarqueológico é um passado feito de marcas e não feito antes das marcas – assim, ele é como uma assombração, como um ramo da espectrologia, atávica, virtual e também reinventado a cada aparição. O passado lamarqueológico é também alheio às eras; na lama o chão tem menos gramática expositiva, já que os traços na lama se embrenham e toda catábase é dissolução. O passado da lamarqueologia não se data, é o passado não da história, mas das histórias que contamos uns aos outros e onde o Chluthluceno de Donna Haraway se ergue em uma anábase no centro de gravidade do antropoceno. A lama é o chão onde a sedimentação se dissolve, onde as épocas se contemporanizam. De um ponto de vista anarqueológico e lamarqueológico, não falaremos de datas; talvez apenas de uma vez que era ou de outra vez que era.

Um dos elementos que distinguem a anarqueologia da arqueologia é portanto o tratamento da datação e um dos elementos que distinguem a lamarqueologia da geologia é o tratamento das eras, épocas e idades. O estudo do passado recente de Ana Lama se presta a esta metodologia porque todo intento de datar suas possíveis passagens por Londres, Brighton, Bruxelas e Calais se mostraram tanto pouco frutíferas quanto um pouco fictícias. Não podemos estabelecer – e isso apela a uma metodologia anarqueológica e lamarqueológica – o que veio antes, o que veio durante e o que ainda vem. Ademais, Ana Lama parece ter estado convencida por muito tempo que os efeitos de seus gestos se espalham de uma maneira e fabricar contemporaneidades onde antes haviam apenas badaladas sucessivas de relógios feitos de eventos e contratempos. E não havia como separar seus atos de seus efeitos. Está estabelecido que Ana Lama teria desaparecido oficialmente em 2015; porém é claro para a anarqueologia e a lamarqueologia que o estudo de seus traços se limite aos que estejam datados para além desse ano; seu desaparecimento deixou marcas em todo o seu trabalho curatorial já que ela se ocupou de espalhar invisibilidade. Ana Lama precisava que seus gestos contra-normais que entendia como cosmeresias fossem o mais distante possíveis da teatricalidade das galerias e palcos, e também das datas marcadas. Para ela, a arte possível era a arte absorvida e o trompe d'oeuil possível é aquele que mescla quem vê e quem pousa para ser visto – o outrora teria que estar absorvido naquilo que sempre vemos. Quando fez a orelha de Van Gogh e Gente que desconheço, talvez em 2011 ou 2016 ou em 2018, interessava-lhe o exercício de absorver pela escuta, ainda que produzindo o gesto insólito; a hospitalidade deve fazer a normalidade se tornar atípica, incomoda, impossível e, ao mesmo tempo, quem hospeda está em sua casa, está em si mesmo, suporta o peso de estar presente como aquilo que absorve. Ainda que presente, Ana Lama estava já desaparecida – pelo menos desaparecida dos anos que se repetem como ladainhas de calendário, um após e o outro e cada um seguindo à risca o anterior.

Duas iniciativas VRP
As vulnerabilidade radical pura (VRP) de Ana Lama a teriam levado em direção ao seu desaparecimento – como desaparecem com poucos traços os refugiados, os clandestinos, os ilegais; quantos além de Ana Lama desapareceram em Calais? Ana Lama conseguiu se tornar uma destas fugitivas que fogem e refogem, que ficam fugidos e refugidos. Não entregou seus papéis a milhares de albanesas, sudanesas, afegãs e líbias, mas trocou com eles a invisibilidade – para que alguém possa ser visto, é preciso que alguém deixe de ser visto. Ela trocou visibilidade por clandestinidade; que ela, portuguesa, egressa de Goldsmiths, curadora fique invisível e não a síria que nem faz performance como performance e nem faz instalação como instalação. Essa iniciativa de Ana Lama chamamos de 1in1out. Trata-se de poder dizer aos poderes que instituem os estados: se é possível conceder apenas a alguns tantos as vossas cidadanias, se alguns saem outros podem entrar. Outros podem ser os franceses que esperam o Beaujolais de fim de outono ou os ingleses que bebem chá com torrada e feijão. Outros podem ser os teus cidadãos e outros podem ter aquilo que é meu que só é meu se eu puder alienar. Pensar que a cidadania é um direito que só pode ser meu se eu puder fazer dele um abrigo, algo que pode receber um outro – como minha casa, meu ouvido ou meu tempo. Ana Lama encontrou uma maneira de alienar cidadania – direito não pode ser inalienável, inalienável é uma condenação.

Acreditamos que por meio de 1in1out Ana Lama conseguiu dar cidadania a 100 novos franceses e a 100 novos ingleses sem retirar de ninguém suas identidades. Para descobrir como ela procedeu, estamos tentando replicar os passos de sua iniciativa. Começamos com uma lista de pessoas dispostas a tornarem-se clandestinas para que outras possam se beneficiar de sua legalidade – pessoas dispostas a entregarem sua cidadania a outros. Ana Lama conseguiu que essa lista fosse considerada por alguma instituição que transferiu a cidadania porém não a identidade para 100 neo-franceses e neo-ingleses e portanto também à 200 neo-sírios, neo-líbios ou neo-sudaneses. Não é claro por que meio ela conseguiu esse sucesso em sua iniciativa, e uma boa parte dos nossos esforços anarqueológicos e lamarqueológicos é encontrar os meandros legais e extra-legais por que passou Ana Lama para conseguir êxito em sua iniciativa. A passagem dos tempos nos campos de refugiados são outroras incontáveis e não sabemos quantas era uma vez passou Ana Lama na jungle de Calais. Sabemos que em muitos lugares de Brighton e Bruxelas se encontram vestígios da iniciativa 1in1out que remete a uma página na internet há pouco ainda ativa e que explica a iniciativa e dá acesso a um formulário para quem quer deixar sua cidadania disponível. Como anarqueólogos, nos apropriamos desta página (os anarqueólogos, como os lamarqueólogos, não procuram preservar seus vestígios, mas fazê-los funcionar, pô-los em ação). Uma vez apropriada essa página, tentamos obter a lista de voluntários através do formulário que ela dá acesso e, em seguida, tentamos obter das autoridades respostas sobre como concretizar a empreitada. Em uma comunicação com a embaixada da Bélgica em Londres

Em uma outra iniciativa, Ana Lama conseguiu um número ainda indeterminado de pessoas dispostas a doar sua cidadania depois de sua morte. O princípio, DonateYourCitizenship, permite que se possa doar cidadania como se doa rins, fígado ou olhos em vida para serem extraídos e transplantados post-mortem. A ideia é precisamente evitar que cidadanias saudáveis possam apodrecer ou desaparecer se podem ser utilizadas por pessoas com cidadanias deficientes. A imagem, como mostram as evidências das campanhas de doação do outros órgãos de que participou Ana Lama, era médica: órgãos saudáveis para pessoas que têm órgãos inabilitados, cidadanias aceitadas para pessoas que têm cidadanias desguarnecedoras. Acreditamos que Ana Lama entendia a cidadania como um órgão e suas materialidades como utensílios. Ela deixava sempre seus passaportes em bibliotecas e livrarias, onde poderiam ser encontrados, carregados como quem faz um shoplifting do que foi objeto de um shopputting e mesmo catalogado pelas autoridades responsáveis pelos livros que assim fazem com que os passaportes possam ser emprestados ou vendidos como pequenos livros úteis em uma viagem. Parece que ela chamava este trabalho algo como o livro que é a melhor nave. Ana Lama fez imprimir cartões de doação como o de Gonca Bahar, que encontramos em Londres no Finnsbury Park, passeando com seu cachorro Mio. Gonca, filha de turca e iraniano e com cidadania britânica, disse que carregava sempre consigo o seguinte cartão:
I donate all my organs including eyes and citizenship

venerdì 25 novembre 2016

Sobre a intensificação da colonização

Ser de um país que te transforma em mendigo.


domenica 20 novembre 2016

Todtnauberg

Ontem fui com Gerson a Todtnauberg.
Nevava.
Procuramos a hütte procurada pelas colinas
e nos aproximamos de algumas outras
que poderiam ter sido
e que não eram.
Fomos em direção àquela hütte,
umas imagens no google, umas indicações em placas verdes
no caminho "Martin Heidegger's Hütte".
Mas no meio do caminho nevado, o silêncio.
Nenhuma placa mais.

Paramos no albergue de juventude e só na saída, enquanto
eu tentava limpar uma placa verde de neve (sem silêncio)
foi que Gerson encontrou Mano Alvaiade ao lado do porta-mala aberto
de um carro preto: por ali.

Na segunda hütte, já de frente à Rütte,
comparamos as janelas,
as portas, os degraus da escada
e como o telhado na parte de trás da casa
se emendava com a inclinação da montanha.
As madeiras, os revestimentos eram outros,
mas havia um esqueleto que correspondia,
correspondia.

Copio aqui uma tradução do poema de Celan:

TRANSLATED BY PIERRE JORIS

Arnica, eyebright, the
draft from the well with the
star-die on top,

in the
Hütte,

written in the book
—whose name did it record
before mine?—,
in this book
the line about
a hope, today,
for a thinker's
word
to come,
in the heart,

forest sward, unleveled,
orchis and orchis, singly,

raw exchanges, later, while driving,
clearly,

he who drives us, the mensch,
he also hears it,

the half-
trod log-
trails on the highmoor,

humidity,
much.