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mercoledì 16 agosto 2017

venham os estrangeiros

8526 milhões de quilômetros quadrados tombados sobre minha cabeça
esse é meu território: bruto e confundido na medula com minha fisiologia,
e esse é o ônus: bruto e confundido na medida com meu complexo de cinderela.

Uma conversa distante entre duas pessoas anônimas
marca o lugar de um trabalho, ou de um encargo,
ou de um encontro.

Não querendo encontrar, eu chamo os estrangeiros.

mercoledì 9 agosto 2017

Voltando aos escombros

Voltando aos escombros

Depois de um ano fora da UnB e do Brasil, volto. A vergonha da nacionalidade, que eu sinto desde maio de 2016, onde quer que eu esteja, se acirra quando por toda parte há pouco espaço para a invenção. A humilhação generalizada, contudo, é um sentimento novo quando ando pelas ruas, pelos corredores, pelos sinais de trânsito. A presença explícita ainda que incapaz de dizer seu nome do arbítrio e da truculência vejo por toda parte – o arbítrio e a truculência em coalizão tomaram o poder estatal federal à golpe de constitucionalidade no ano passado e desde então capilarizaram-se por muitos rincões de um país que se viu obrigado a endossar uma subalternidade privilegiada. É certo que este estado de coisas de governo pelo medo não é inédito nem no Brasil e nem no resto do mundo – é algo cada vez mais frequente. O controle das populações ultrapassa quase todos os dispositivos de participação e interferência nos espaços públicos e as democracias parecem perder intensidade a cada ciclo eleitoral. E, no entanto, percebo a diferença entre a humilhação dos que foram golpeados e o clima de expectativa – ainda que raramente de protagonismo – que imperava antes do ano passado tenebroso.

Tento começar a exorcizar esse sentimento de destituição na exposição Não matarás do Museu da República organizada por Wagner Barja. A exposição gira em torno de mais de 50 obras de José Zaragoza sobre os rastros do golpe de 1964 e abarca outros trabalhos recentes acerca da nação golpeada. Na exposição retomo minha performance O desarmado que comecei a fazer na praça de Tlalteloco na Cidade do México em 2014. Escrevo na tabuleta que acompanha meu gesto:

Em vez de revoluções,
golpes de estado.
A polícia protege os governos
contra os governados.
Sobraram a ditadura constitucional
e os desarmados.

Ao mesmo tempo, em Brasília, como que para amortizar minha aterrissagem, a exposição de Traplev onde a pos-democracia é um dos ingredientes: o diagnóstico de que os dispositivos democráticos se tornaram rituais de legitimação sem efeito diante do poder econômico de endinheirados globais que atuam dentro da ordem constitucional e indiferentes à encenação dos rituais democráticos. Pois então: chego a uma ditadura constitucional. Um regime que talvez tenha que ser pós-democrático já que a democracia tem que ter sido experimentada em alguma intensidade para se tornar a constitucionalidade uma liturgia que dispensa a participação pelas formas democráticas. Há uma tensão entre democracia e constitucionalidade. Essa é a tensão que deu o bote. A democracia, se precisa se expandir para sobreviver, esbarra nos direitos adquiridos e nas instituições estabelecidas. A ordem constitucional é uma liturgia que pode ser preservada em ambientes crassamente antidemocráticos. Esta é a experiência por que passa o Brasil para onde volto. Um regime de exceção e de direito.

Não sei se entendo bem o que perdi – talvez demore muitos anos para entender. O que perdemos na universidade é claro: recursos para investigar, capacidade para inventar, importância. Somos obrigados mais uma vez a engolir pílulas de subalternidade. De um ponto de vista mais amplo, o tamanho do dano não posso dimensionar. Porém percebo já que uma ditadura constitucional é a mais terrível das formas de governo. Ela é o avesso da democracia e também o avesso do domínio de um déspota soberano que prescinde de leis. A lei se protege a si mesma – com a ajuda dos aparelhos de segurança que a balizam e a transformam em lei. Chegamos nisso. Talvez a experiência brasileira – como tantas experiências de fascismo que foram inventariadas no último século – seja precisamente o futuro das humanidades governadas em um planeta em perigo. Penso que o golpe brasileiro é mesmo a vanguarda de uma distopia. Nada que mereça que eu escreva para casa contando. Além disso, a casa ruiu.


mercoledì 2 agosto 2017

O desarmado (para amanhã talvez)

Talvez, em "Não matarás", Museu da República:

Em vez de revoluções,
golpes de estado.
A polícia protege os governos
contra os governados.
Sobraram as ditaduras constitucionais
e os desarmados.

sabato 1 luglio 2017

o país?

to achando o brasil o país mais triste do mundo. onde não mora nem esperança, nem ousadia. onde só moram rebanhos e rebanhos de gente com medo. perdemos tudo: o sentido da parada, a vergonha da presepada , o fio da meada. não sobrou nada, aliás sobrou só um nada, intenso nada. falam de horror ao vácuo mas tenho achado que do lado de baixo do Oiapoque não há mais nada além do nada. nem o horror. nem mesmo o olulante: uma revolução completa que se seguisse das premissas maiores e menores de um silogismo traduzido: necker est reenvoyé (i.e. temer e aécio e gilmar seguem no prumo), c'est le tocsin d'une saint-barthélemy (é um ultraje, um golpe a cada dia) - aux armes (não tem armas, tem contas pra pagar).

mercoledì 14 giugno 2017

- Mesmo quando não tem nada em cima de você, tem céu.

Vrim embaixo de um céu verde e sem nuvens: onde está o céu? Os passarinhos comeram ele todo?


venerdì 9 giugno 2017

A coroa de Ferro

Por meio de Carla Ferro e com uma coroa de pedrinhas de brilhante
me coroei hoje princesa persa.

Tenho os pelos levantados, e de muitas cores e altos e um manto
feito de veludo cor-de-pistache
um bastão de limas e me concedo as regalias,
cada uma delas com cereja:
um passeio pela manhã, um descanso depois do almoço e
me deixo dar os pulinhos.

Claro que me encarcero, com barras de ferro
nas veias e grilhões nas asas
vermelhas.
Mas os fios das têmporas, revoltos encaracolados,
sentem a textura de Isfahan
e se acalmam.

domenica 14 maggio 2017

Sem língua

O Temer e a empáfia
não me roubam só tranquilidade
ou justiça, me roubam minha língua -
minha única língua natal.

Fico com uma língua envergonhada de si,
fico querendo me esconder atrás de palavras,
que ficaram tão raquíticas
que deixam ver através dos seus ossos
meus dentes mordendo os lábios.

martedì 9 maggio 2017

Meu romance com a humanidade

Quando vi os primeiros exemplares, achei que eles eram enormes,
mãos que me carregavam, olhos que me olhavam inteiro
de um só relance, sem mexer a cabeça.

Mas não me lembro mais da língua dos meus pensamentos.

(No filme do Jarmusch, que vi na entrelinha
entre o primeiro verso e o segundo,
um japonês de Osaka se senta ao lado de Paterson,
um poeta motorista de ônibus de Paterson
que escrevia em um caderno sem cópia
devorado por seu cachorro quando ele foi ao cinema
com a namorada que vendeu 263 dólares de bolinhos
no sábado. O poeta tinha o mundo sem seu caderno de poemas
aberto a sua frente - bem, não o mundo, mas a cachoeira
e a ponte de Paterson. E ele, Paterson, sentado no banco
agora ao lado do japonês que lhe fala que escreve em japonês,
sem tradução -
poetry in translation is like taking a shower with a raincoat.)

Mas não me lembro mais da língua dos meus pensamentos.

Depois eles, os humanos, se tornaram cheios de capacidades
que eu não entendia como cada um deles de repente adquiria.
Eles se juntavam em praças, em praias, em parques,
e faziam amigos. Com baldinhos de areia,
com regadores, com pázinhas que eu fazia castelos,
eles faziam amigos.
Eu queria fazer amigos com eles, e
um dia iria lhes perguntar como juntar os grãos de areia
molhados em um castelo
sem que cada grão vá para o seu canto?

Depois entendi que as pessoas gostavam de ver nos outros
coisas enormes. Era isso que eu via, era isso que eu mostrava.
Uma grandiloquência, feita de cerejas distribuídas na noite
de ano-novo aos desconhecidos. A humanidade não recusa
as cerejas. Nem no Canal da Mancha, nem no Titicaca.
O lago Titicaca me deixou com febre.

Passei dias no barco de palha pelo lago,
onde todos os peixes nativos foram substituídos
por peixes pescados.

Ontem fui ao parque onde sobre uma toalha enorme
havia comida de toda parte, galinhas assadas,
e as beterrabas com creme que eu trouxe
e as folhas de parreira. Havia gente de toda parte.
Achei que eles eram grandes, mas mordiam.
Achei que eles me acharam grande, e que eu mordia.
Dei uns passos para trás, e sentei na grama.
Seria melhor pedir o divórcio?

venerdì 21 aprile 2017

Agora a colher

* Mais uma tentativa de escrever sobre lavar a colher na pia. No blog tem outra, de junho de 2008

Uma sobra de gordura, matéria pura sem forma nem cor,
grudou na colher que a senhora, o senhor,
que traz quase toda sua vida
espalhada por toda sua coluna doída,
ou não traz nada,
lava.

Onde estava a senhora? Atrás de uma cortina branca
no interior da Frisia. Mas a Frísia é apenas o nome do pedaço de mundo
onde a Antonia come––e lava a colher.
Ela despeja no metal um detergente qualquer––amarelo.
O detergente é gosmento, suas mãos são feitas de carne
já tocaram o ríspido e o belo, já apalparam o tenro e o espinhoso;
ou não apalparam nada.
A pessoa que lava a colher é polifónica:
está por toda parte,
por toda cozinha,
universal, quotidiano, empacado e abstrato.
E é eterna.
Sempre lava a colher.

Eu agora da senhora.
da agrura dos objetos
da cozinha sem endereço,
sem latitude.
Amanhã lavo a colher,
em Copacabana lavo a colher,
em Veracruz esfrego a colher,
no Mississippi lavo a colher,
na Walonia ela lava a colher,
na Patagônica ponho pra secar e desligo a torneira
esvaecer a sobra de gordura––esgoto abaixo.
Duas mãos compostas de minutos gordos e magros,

Talvez consigas encostar tua testa nelas.

venerdì 14 aprile 2017

O rodapé da Mars Poetica


<< Il cavallo scalpita, i sonagli squillano, schiocca la frusta.—Ehi là!— Soffii il vento gelido, cada l'acqua e nevichi, a me che cosa fa? >>

Mars Poetica

Não é sentir uma temperatura em um pacote;
não é fixar os olhos nas extremidades das portas
onde elas ficam afiadas e afinadas em um pacote.
Não se trata de uma confissão.
Mas na pele onde tem dermatologia
tem analogia.
E outra, e outra - querendo chegar na Mesma.
Dá no mesmo.
É claro que parece nessa tarde de sexta-feira santa
a 3 milhas do Mississippi e depois de ouvir Pietro Mascagni
que estou à esmo.
Mas não era a rima e nem a razão que dedilhavam
pelos meus dedos, nem era a sensação.
Era a minha incapacidade de sorver
o vento quando a porta está aberta.

domenica 5 marzo 2017

Nähe\Beckett

Duas luzes, a da imensidão contemplada com os olhos de quem incorpora
(compreende, aprende, descobre, dispõe, alicia) e
a do pequeno vaga-lume que o imigrante sírio de 3 anos
encontra nos olhos de mãe.
A psicologia papai-mamãe fala do vasto mundo e do sentimento oceânico.
Há os oceanos, e há uma invencível armada.
Há Cook e há aquela esposa do bombeiro de Chernobyl que Alexièvich descreve
(não há como escolher entre o amor e a vida).
Queria entrar de um delírio (beckettesco)
sem pai nem mãe.

Um paciente sem paciência.

venerdì 3 marzo 2017

O messias chegou, salvou ou danou, e já se foi

se foi virar fumaça o cidadão enquadrado e respeitado e agora é trapo sem ter escolhido a sordidez nem por um segundo
não se trata de punição, as portas são ralos, e ralos não tem soleira, não tem batente, não tem dobradiças
me entupo de bolo de mel com lavanda
como pode haver um bolo de lavanda. e sei que a lucidez patas de aranha é uma composição química
uma farmácia, e mais que isso, bem mais.

escrevo sobre o cansaço - a grande porta.
é a porta que me interessa nos enlutados, nos traumatizados, nos que estão pós-esperança
nos que não mais galgam.
estar por aí ainda como entre os que sobreviveram e descobriram a vida depois e
não antes do messias chegar.

termino as páginas do museu da inocência de pamuk
também kemal ultrapasou o que queria da vida e seu museu é o de depois
os museus são sempre de depois, é por isso que soltam um ar tranquilo
de quem já terminou os anos
e apenas se lembra por alto do que foram os meses cheios de dias.

no café do garden district tocam un nino rota, acho que de amarcord
a infância relembrada como um bicho empalhado;
virar pós-criança